1 de jun de 2011

Dona Rosa

Ao girar a chave na fechadura ouviu-se um ruído que simbolizava a abertura da porta. Ele estava em casa. Deparou-se com sua recém aquisição, uma árvore pequena plantada em um vaso decorado a mão de forma singela. Percebeu então que havia uma pétala nova que despontava para a esquerda, sentiu-se bem com a visão, simbolizava um cuidado reconhecido depois de dez dias. Deixou a mochila no quarto, despiu-se e foi para o banho. A água jorrava em seu corpo e proporcionava um relaxamento que possibilitava descaregar as energias. Preparou um lanche e pode por um instante repousar seu corpo na poltrona acondicionada próximo a janela que o permitia apreciar o mundo lá fora. Muita coisa fora do lugar, muita coisa no lugar. Era como seu lar que o chamava a todo instante com uma fome de caracterização. Havia excessivamente o que fazer naquele espaço pequeno onde morava, porém seu corpo não ajudava nas iniciativas. Ele queria apenas deitar e não pensar em nada. Percebeu que o lanche ficou esquecido em meio a tantas indagações. Apressou-se na degustação. Arrumou o lixo de forma a alojá-los em recipientes para coleta seletiva. Ousou sair de casa, com as mãos carregadas e as pernas apressadas em direção as lixeiras externas. Com o ato concluído olhou para o lado e viu uma senhora. Ela tinha um rosto ressecado, corpo pequeno e magro, cabelos cor de cobre. Ela também tinha uma necessidade de falar. E quando sentiu uma abertura começou a compartilhar sua história. Foi um monólogo longo, um monólogo onde não havia repetições de palavras, onde tudo era inédito. Então ele deixou-se escorregar até sentar ali mesmo na calçada ao lado dela. Ele observou as mãos dela que balançavam no ar regendo a história narrada. A fala era mansa, os olhos eram expressivos, a respiração as vezes atrapalhava uma palavra dita devido a necessidade de inspiração, porém não apagava a intensidade que ela trazia. E lá se foram quarenta minutos de uma narrativa intensa e bem articulada. Ao fim de sua fala, ela levantou, limpou a roupa com tapas repetidos e logo após lhe ergueu a mão (e logo ela que apresentava seus 70 anos e com uma imagem tão frágil), as mãos entrelaçaram e ele sentiu uma força erguendo seu corpo e lhe puxando para junto do peito. Sim, foi um abraço. Um abraço conclusivo, um abraço de obrigado por emprestar seus ouvidos, um abraço cedido para ele que sempre precisa de um abraço. Enfim ela sorriu, deixou emitir um som com o sorriso, colocou-se a andar e a seguir seu caminho. Ele ficou por uns instantes observando esses passos vagarosos, sistemáticos e harmônicos. Ele respirou profundamente, deixou emitir um som com a respiração, colocou-se a andar e a seguir apenas sem direção com seus passos largos, confusos e desarmônicos. Ele sentiu vontade de ser observado, assim como ele a observara. Ele virou levemente a cabeça e a viu parada o contemplando e acenando positivamente, com se tivesse lhe dizendo: - Chegue em casa, abra sua porta, aprecie sua árvore, prepare seu lanche e não esqueça de comê-lo. Apareça aqui sempre para deixar o lixo, para que eu possa usar seus ouvidos e sentir seu olhar e para que você possa ser erguido por minhas mãos e acolhido em meus abraços. E no final de tudo, ainda teremos tempo de comtemplar os passos um do outro na volta para casa.




"Escrevo como se estivesse dormindo e sonhando: as frases desconexas como no sonho. É difícil, estando acordado, sonhar livremente nos meus remotos mistérios.... fica sempre a certeza de que se dormiu e se sonhou. Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras pessoas. E outras coisas... Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la."
(Clarice Lispector)


3 comentários:

  1. Reconhecer que o inesperado pode emergir em nós satisfação, é encorajar-se na vida e desbravar as intempestivas doses de preconceito que nos mantém inertes. Nossos ouvidos são mais valiosos que os olhos, pois eles são para os outros... E enxergar com lucidez, é desconsiderar que os fenômenos se renovam e deturpam a razão.

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  2. Que magia e sensibilidade...
    Fiquei profundamente comovida com seus escritos...

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  3. obrigado... e que venha os próximos... bjos

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